[RESENHA] Frankenstein, de Mary Shelley (1831)

Detalhe do frontispício da edição de 1831.
The Morgan Library Museum. Exposiçao de 200 anos da publicação de Frankenstein.
Frankenstein é muito mais que apenas uma história de terror com uma criatura monstruosa feita de partes humanas, ou uma crítica a busca do conhecimento. Dialogando com livros, autores e concepções filosóficas presentes no cotidiano de Mary Shelley, é uma obra instigante, que promove discussões éticas e sociais profundas, podendo ser o ponto de partida para novas descobertas e novos saberes.









Ao lado de Drácula, de Bram Stoker, dO Médico e o Monstro, de Robert Louis Stevenson, a história da empreitada do jovem cientista Victor Frankenstein na busca por dar vida a um ser inanimado e das consequências horríveis de seus atos foi recorrentemente adaptada a outras mídias, tais como o cinema, o teatro, a televisão, as histórias em quadrinhos e até mesmo jogos de video-game. Frankenstein, de Mary Wollstonecraft Shelley, tornou-se tão conhecida que muitas pessoas pessoas, mesmo desinteressadas por ficção gótica ou por literatura de terror, podem descrever em linhas gerais o enredo e as personagens principais do livro.
No entanto, esse contínuo processo de releitura e de apropriação das premissas básicas da obra fizeram com que essa imagem geral que construímos da história ficasse cada vez mais distanciada da versão da autora. Um leitor desavisado pode, por exemplo, acreditar ser a Criatura, e não o cientista, que carrega o nome de Frankenstein, ou esperar encontrar no livro a origem de cenas icônicas, tais como o delírio eufórico do cientista quando vê sua criação ganhando vida, ou ao menos acreditar através da leitura que vá se deparar com uma criatura verde, de proporções gigantescas, com pedaços metálicos em sua cabeça, cicatrizes espalhadas pelo corpo e que consegue pronunciar apenas grunhidos. Qual, então, não é a surpresa desse leitor quando percebe que muito do que frequentemente se diz da história não originou-se diretamente do livro de 1818/1831?
Mary Shelley, filha de duas importantes figuras públicas da época (William Godwin, importante pensador anarquista, escritor de Calleb Williams, e Mary Wollstonecraft, influente radical feminista), foi desde a infância ávida leitora das mais variadas obras literárias e filosóficas, como atestam algumas das cartas de seu pai. À criação em um ambiente social e intelectual rico, no qual personalidades como o poeta Samuel Taylor Coleridge, autor de The Rime of the Ancient Mariner, e cientistas como Humphry Davy, químico pesquisador de fenômenos elétricos, poderiam ser encontradas confraternizando na casa de sua família, soma-se o incentivo a atividade literária por parte de figuras como Percy Bysshe Shelley e Lord Byron.
Diante desse contexto histórico e social culturalmente rico e diverso, não seria de se estranhar que Frankenstein fosse impregnado por inúmeras referências a outros livros de literatura mundial e a sistemas filosóficos com os quais sua autora entrou em contato, que tornaram a obra muito mais profunda do que uma mera história de horror, como pode parecer se levarmos em conta apenas suas adaptações subsequentes. No livro de Mary, estão presentes referências a poemas épicos ingleses, a filosofia de língua francesa e até a produção literária do círculo social íntimo de sua autora. O objetivo desta Resenha é, então, enumerar alguns desses diálogos e mostrar como estão presentes em Frankenstein, expondo como serviram de base intertextual para as reflexões pessoais da autora, e como, ainda hoje, podem servir aos leitores como centelha para novas discussões e interesses.

Começando com os diálogos que Mary fez a uma das figuras mais próximas socialmente e emocionalmente dela: Percy Bysshe Shelley, tido por alguns estudiosos não apenas como de grande importância filosófica, por compartilharem entre si muitas experiências de leitura e de socialização, mas como base para a construção do protagonista de Frankenstein. Na história, Victor é retratado como um indivíduo idealista e sonhador, que tem na busca por conhecimentos ocultos sobre a vida e na salvação da humanidade das mazelas da morte os principais combustíveis que o levam a animar a Criatura. Embora de temperamento volátil que frequentemente direciona-se a melancolia e ao arrependimento, como se percebe pelas suas variações de humor ao interagir com o monstro e ter conhecimento das consequências dos atos deste, ele é capaz de absorver a beleza da natureza, entrando em um contato extremamente íntimo com ela, como nos é permitido observar particularmente nas cenas em que, deitado no fundo de um barco, admira o céu estrelado, ou quando observa a beleza das montanhas no trajeto que precede o encontro no gelo. Tais hábitos unidos à personalidade sonhadora mais ampla do cientista faziam parte da identidade de Percy, como atestam anotações biográficas. Ideologicamente, também, eles eram semelhantes, pois ambos compartilhavam da imagem idealizada quanto a busca desenfreada pelo conhecimento, ignorando em grande medida as consequências práticas que essa perspectiva poderia gerar.
Quando esta ânsia desenfreada pelo saber era direcionada para a nascente ciência moderna, a questão era ainda mais profunda, pois não apenas Percy, mas uma parcela da sociedade inglesa parecia defender a busca pelo saber acima de outros valores sociais, como fica claro por escritos científicos como os de Humphry Davy, que defendiam a violação dos mistérios da Mãe Natureza, ou por experimentos moralmente controversos, como as tentativas de dar vida a seres inanimados através da eletricidade, realizados por Giovanni Aldini. Tratava-se, portanto, de um estado de espírito da época, que poderia ser percebido nas mais diversas ocasiões e áreas do conhecimento por todos aqueles que mantivessem contato com grupos que promovessem essas buscas.
Mary Shelley, leitora voraz como era e inserida em circulos sociais ricos como foi ao longo da vida, tinha conhecimento dessa conjuntura social ampla e dos parâmetros ético e morais nos quais a ciência se sustentava, como se verifica por anotações em seu diario e em cartas das conversas que realizava com pessoas como Percy ou Byron. Através de Frankenstein, procurou, entre outras coisas, refletir sobre os danos que este tipo de comportamento e frenesi social poderia causar às pessoas e ao coletivo
Como base para argumentação implícita no livro, utilizou-se em grande medida das propostas filosóficas de seu pai, que defendiam que todo e qualquer conhecimento teria apenas sentido se fosse desenvolvido de modo a beneficiar a sociedade como um todo. Godwin acreditava que o homem era um ser perfeito e sociável, argumentando que, enquanto instituições positivas, tais como a religião e o matrimônio, promoviam comportamentos autoritários e encaminhavam a sociedade por um caminho obscuro, era dever do indivíduo insistir no convívio em comunhão, pois só através das relações humanas a eterna benevolência intrínseca à humanidade poderia se desenvolver e encaminhá-la à glória. Segundo sua visão, toda a ação humana deveria ser norteada por esses princípios coletivos, para que se alcançasse a justiça e o desenvolvimento histórico. Tudo que fugisse a isso (o egoísmo e o isolamento, por exemplo), provocaria perdas e miséria.
As teorias “godwinianas” se relacionam as de outro filósofo fundamental para Mary Shelley: Jean-Jacques Rousseau. Embora a influência da filosofia para a narrativa de Frankenstein seja melhor discutida em outro ensaio publicado aqui da Revista (ainda em fase de preparação), será interessante tratar apenas em linhas gerais da concepção rousseauniana de formação individual. Rousseau foi o responsável pela secularização (retirada do âmbito religioso e aplicação em outros aspectos sociais) da teoria da inocência cristã; segundo o filósofo, o homem nasceria inocente e, consequentemente, bom, mas a convivência com outros indivíduos e outras instituições poderia corrompê-lo, tal como defendia Godwin. Esta visão estaria presente em Frankenstein quando, por exemplo, a Criatura afirma ser um indivíduo bom, que nunca desejou o mal a ninguém, mas que foi submersa em sentimento de vingança e de destruição por causa das ações que sofreu de outras pessoas, como a reação da família da cabana ou, principalmente, o abandono egoísta que sofreu de Victor, seu criador e protetor. Através dessa e de outras passagens, Mary está tentando exemplificar e reforçar as visões desses dois filósofos, de modo a fundamentar sua crítica, que mais adiante tornaremos mais nítida.

A partir da identificação dessas referências filosóficas, podemos abordar uma das principais imagens que se criou acerca do livro de Mary Shelley. É comum, em rápidas buscas na internet, entrarmos em contato com comentários que destaquem um suposto aspecto reacionário da obra, que seria marcada pela crítica pura ao progresso científico e ao conhecimento. Tais análises procedem? Para muitos leitores, a noção mais geral que a história transmite é a de que através dela a autora procurou defender perspectivas conservadoras, afinal, é facilmente perceptível no livro uma mensagem de caráter moral, e basta uma rápida reflexão sobre as consequências às quais Victor se submete após dar vida à Criatura para percebermos que grande parte da crírica da obra se dirige a essa empreitada. No entanto, é necessário termos em vista  especificamente a quais aspectos mostrados na narrativa Mary está dirigindo suas considerações. A ideia de que o progresso científico é o grande inimigo da sociedade só se fundamenta se negadas uma série de pormenores presentes na obra, muitos deles expostos anteriormente e outros que trabalharesmos a seguir.
A relação que há entre Frankenstein e o poema The Rime of the Ancient Mariner (declamado pelo próprio autor a Mary quando esta era apenas uma criança) pode ser tida como uma das bases sobre a qual se desenvolveu essa visão recorrente. No poema, um marinheiro narra como, amaldiçoado por espíritos sobrenaturais por ter matado um albatroz enviado por Deus para salvar seu navio dos mares da Antártica, foi obrigado a vagar eternamente pelo mundo contando sua história de modo a evitar que outros indivíduos cometessem os mesmos erros. Os paralelos são evidentes: assim como o marinheiro do poema, Victor parece ter sido condenado a sofrer eternamente pelo erro de ter dado vida à Criatura; a diferença é que, enquanto a ingratidão é o maior erro para Coleridge, para Mary seria a busca irrefreável do conhecimento o fator que deveria ser evitado e punido. No livro, tanto Victor quanto Walton (narrador da história) possuem esse impulso, e ambos estão sendo punidos por possuírem-no: o capitão, que escreve as cartas que compõe a narrativa, encontra-se preso ao gelo Ártico por tentar ser um dos primeiros a alcançar o Polo Norte, enquanto o cientista chega ao navio por causa da fatídica busca por sua criação. Para reforçar a crítica a busca pelo conhecimento, teríamos ainda o fato de que: 1) a todo o momento que o narrador propõe que Victor conte o segredo por trás do processo de reanimação, este alerta para os riscos de se desejar mais do que se deve; e 2) o fato do navio de Walton só ser liberto do gelo quando este resolve abandonar a jornada e, consequentemente, sua ganância.
Dando continuidade à defesa do aspecto conservador, teríamos então dois outros diálogos importantes para a construção do livro: as referências ao Mito de Prometeu e ao Mito da Criação. A versão romana do primeiro, presente na obra Metamorfoses de Ovídio (lida pelos Shelley), seria a de que o Titã Prometeu, por dar vida a criaturas inanimadas feitas de argila utilizando-se do fogo dos deuses, foi condenado a ficar eternamente acorrentado a uma montanha, enquanto uma ave comeria todo dia seu fígado, que regeneraria durante a noite. A trajetória de Victor seria uma alegoria deste mito, cuja utilização por Mary, teoricamente, reforçaria a mensagem de que o homem não poderia almejar poderes e segredos que só seriam direito de Deus, como, segundo ela, estaria ocorrendo das ações de cientistas como Humphrey e Aldini.
Por sua vez, a literatura cristã reforçaria o aspecto moralista e reacionário de Frankenstein. No Mito de Criação, presente no Gênesis da Bíblia, é relatado como Adão e Eva foram expulsos dos Jardins do Éden por terem provado a fruta do conhecimento, proibida aos humanos. Ora, o conhecimento seria, novamente, visto como um direito restrito a Deus; logo, a busca empreendida pela ciência, uma busca, como dito anteriormente, violadora e que poderia por em risco a onipotência de Deus, seria um pecado aos moldes dos que levaram a expulsão do primeiro casal, principalmente se levarmos em conta que o maior objetivo de Victor é imputar vida artificial em seres inanimados
Portanto, seria a partir desses três referencias presentes na obra (o poema The Rime of the Ancient Mariner, o Mito de Prometeu e o Mito da Criação) que muitos leitores podem imputar na obra de Mary Shelley um aspecto conservador, de crítica pura e objetiva ao progresso científico e a busca pelo conhecimento.

No entanto, é necessário notar algumas nuances que podem passar despercebidas em uma leitura desatenta. Por exemplo, a narrativa cristã em Frankenstein não é baseada na versão da Bíblia, mas sim na do poema Paraíso Perdido, de John Milton, referenciado não apenas externamente, mas também “internamente”, pois é este um dos livros lidos pela Criatura na cabana. Neste épico, é desenvolvida uma releitura moderna do Mito da Criação: por exemplo, no poema há um momento no qual Adão critica o fato de ter sido criado por Deus sem um propósito, mostrando as dificuldades advindas dessa condição. Esta consideração é ecoada pela Criatura e pelas situações por ela vivenciadas: criado por Victor sem saber os motivos e fadado a vagar pelo mundo sem propósito, sua personalidade inocente e boa acaba por ser corrompida em decorrência do desespero e da miséria
Relacionando essa passagem às considerações filosóficas relativas a importância da sociedade para o desenvolvimento da Criatura, fruto da reapropriação das teorias de Godwin e Rousseau, podemos, então, defender que o problema exposto por Shelley não é a busca pelo conhecimento, mas sim uma busca por conhecimento alheia a interesses sociais e distante do contato benéfico da sociedade, uma busca marcada pelo egoísmo e pelo abandono. 
O fato de Victor ser atormentado por sua criação não é decorrência de ter almejado mais do que deveria, repetindo os erros expostos nos mitos de Prometeu e da Criação, mas sim por ter desejos egoístas, por ter acreditado que sozinho, e não em sociedade, seria capaz de retirar a morte da lista de medos da humanidade. Ao mesmo tempo, ao renegar sua Criatura, o criador permite que ela seja remodelada de maneira perversa e negativa, tal qual ocorreria segundo as visões dos dois filósofos. Dessa maneira, o objetivo por trás da narrativa de Victor não é alertar para os perigos da ciência e do conhecimento científico, como inicialmente se supõe, mas, sim, criticar uma ciência egoísta, que desconsidere os desejos e as demandas das pessoas ao redor. Mary Shelley faz das palavras e dos erros de Victor sua maneira de alertar a sociedade inglesa do precipício que estaria diante dela caso se perdesse de vista o fator humano que deveria reger o avanço científico.
Para reforçar essa nossa visão, abordemos mais algumas passagens da história. Por exemplo, a descrição do isolamento ao qual Victor se impôs ao longo de dois anos, negligenciando a universidade, sua família, seus amigos em prol da sua criação (demonstrando assim sua alienação social); a ausência de ensinos humanistas, das leis e da história, na educação do cientista enquanto este era uma criança; ou a salvação de Walton e sua tripulação descortinando-se simbolicamente quando ele resolve abdicar de desejos que estavam colocando em risco seus colegas, desejos, portanto, egoístas. Essas passagens demonstram a importância para Mary do social para a formulação de sua crítica: estando presente na história, esse aspecto passa a fundamentar a argumentação que a permeia. Assim, reverberando a mensagem de seu pai, e apresentando os limites das concepções de seu esposo, Mary Shelley não desejava negar a ciência ou os benefícios que dela poderia advir, mas alertar para uma possível negligência do valor ético e social que deveria reger as descobertas contemporâneas. Sua obra, portanto, não seria de um reacionarismo simplista, já que teria um ar progressista, ao mostrar caminhos que garantiriam a justiça e os benefícios da ciência.


Detalhe que mostra uma citação do Paraíso Perdido, de John Milton no frontispício da edição de 1818.
[Pedi eu a ti, Criador, que de minha argila/ Me fizesse homem? Solicitei eu a ti/ Que da escuridão me levantasse?]
The Morgan Library Museum. Exposiçao de 200 anos da publicação de Frankenstein.

O
aspecto progressista de
Frankenstein pode ser ainda observado sob outras perspectivas, que não desenvolveremos para não cansar o leitor. Resta por fim apenas citar de passagem algumas outros diálogos presentes na obra: a estrutura epistolar (coletânea de cartas) do livro tem como principal influência o autor Samuel Richardson, e o aspecto de Caixa Chinesa (histórias inseridas uma dentro da outra) remete ao livro Des Gespensterbuch, de F. Schulze e J. Apel, uma coletânea de histórias de fantasma. Além disso, há uma série de materiais biográficos que mostram que Mary Shelley leu muitas novelas góticas, dentre as quais O Italiano e Os Mistérios de Udolpho, de Ann Radcliffe, O Monge, de Mathew Lewis, Wieland e Arthur Melvyn, de Charles Brockden Brown, e Vathek, de William Beckford. Aspectos desses materiais podem ser percebidas na obra de Mary Shelley como um todo. Por fim, como não poderia deixar de ser, Mary Shelley leu em primeira mão muitos dos poemas de PErcy Shelley e Lord Byron, e influências deles podem ser vistos em vários de seus escritos.
Mas antes de passarmos as considerações finais, desejo apenas deixar três coisas claras. A primeira é que a visão aqui desenvolvida acerca do Frankenstein não é única e definitiva. Ela partiu principalmente da leitura da obra e de comentadores desta por parte do autor, e não procura ser definitiva. A segunda consideração é um desdobramento da primeira: a obra de Mary no geral é bastante profunda e complexa, chegando até mesmo a ser contraditória em muitos aspectos, o que continuamente permite novas leituras. A terceira é que, apesar de procurarmos nesta resenha enumerar as referências que foram de alguma serventia para a escrita do livro, não procuramos aqui imputar que ele não seja original ou que sua autora tenha meramente copiado elementos externos: as obras de Mary Shelley não são decorrência direta daquilo que lhe foi dito e mostrado, são fruto das considerações pessoais da autora e das próprias reflexões; não pretendemos, principalmente, apagar sua importância frente a figuras que a cercaram, como Percy Shelley e William Godwin, apesar das relações sociais que estes possuíam com ela.

Concluindo. Podemos pensar que a obra de Shelley apresente-se como a própria criatura que ganha vida em suas páginas: uma união de várias filosofias, referências e autores, mas que age e fala de maneira autônoma, desenvolvendo argumentações e reflexões inovadoras. Frankenstein não é um ponto de chegada de sua época, uma união e síntese de outros sistemas de pensamento, mas sim um ponto de partida para novas discussões, novos conhecimentos e novos interesses. Seu valor reside na sua riqueza e complexidade, que pode permitir que nos entretemos com o aspecto dramático e trágico do horror descrito nas ações de Frankenstein e sua Criatura; que reflitamos sobre a narrativa, acompanhando as discussões que a própria autora propôs através dela, como é o exemplo das considerações acerca do progresso científico; ou que a utilizemos como ponto de partida para a leitura e o aprofundamento de outros autores, como é o exemplo do que foi realizado em outro ensaio presente neste blog (ainda em fase de preparação). A demonstração desses três aspectos reforça o objetivo central desta resenha: incentivar o leitor a ir atrás de novas obras e a mergulhar ainda mais na ficção gótica e sua complexidade. A riqueza de Frankenstein incentiva esta busca.

***

Qual edição ler?
Frankenstein foi extensamente revisado e ampliado por Mary Shelley entre a 1ª edição (1818) e a 3ª edição (1831). Das duas, a última foi a mais utilizada para reedições e traduções, tornando-se a mais conhecida do público. Normalmente, quando a primeira edição é utilizada como base, é informado na capa ou até mesmo no subtítulo da publicação em questão.
No Brasil, a obra foi amplamente reeditada, pelas mais diversas casas editoriais e com os mais diversos acabamentos e apuros acadêmicos, o que faz com que as opções sejam inúmeras, agradando aos mais diferentes gostos e propostas. Particularmente, nós da revista costumamos valorizar edições mais críticas, que possuam notas de rodapé e introduções, além de serem traduzidas por profissionais mais conhecidos e mais experientes. Diante disso, recomendamos:
  • Para uma edição mais crítica e trabalhada graficamente, as duas versões da Zahar (tradução de Santiago Nazarian) são uma ótima escolha.
    • A edição comentada conta com apresentação, notas e uma cronologia da vida e obra da autora; além disso, nos anexos estão presentes a introdução de Shelley a 3ª edição e o prefácio de Percy Bysshe Shelley à 1ª edição. Capa dura.
    • A edição de bolso, mais simples e barata, conta com apenas a apresentação, mas é fisicamente menor, embora o texto seja também integral, o que facilita caso seu interesse seja deixá-la na sua bolsa ou mochila para ler durante folgas ou no transporte público. Também em capa dura.
  • O melhor custo-benefício fica a cargo da edição da Penguin/Companhia das Letras. Conta com tradução de Christian Schwartz, uma das melhores no mercado, introdução e notas de Maurice Hindle e posfácio de Ruy Castro. Junto a edição da Zahar, é a de melhor apuro técnico quanto ao trabalho do texto, mas não possui tanto acabamento gráfico, já que segue o padrão  da série "Classics" da Penguin internacional. Como extras, essa edição conta com o prefécio de Percy à 1ª edição, a introdução da autora à 3ª edição, notas comparativas entre a edição de 1818 e 1831, um fragmento de Lord Byron e com o conto O Vampiro, de Polidori.
  • Se o seu foco é o acabamento gráfico, a versão da Darkside Books é uma ótima opção. A editora é bem conhecida pelo acabamento estético que dá aos seus livros, e Frankenstein não é exceção, pois conta com capa dura em relevo e ilustrações de Pedro Franz. Além disso, seu catálogo conta com várias obras de horror clássico, inclusive Drácula e coletânea de contos de Edgar Allan Poe, o que pode ser interessante para quem quer começar uma nova coleção na estante. Esta edição conta com a tradução de Márcia Xavier de Brito e tem como extra quatro contos de Shelley que também remetem ao tema da imortalidade (Valério: O Romano Reanimado; Roger Dodworth: O Inglês Reanimado; Transformação; e O Imortal Mortal) todos traduzidos por Carlos Primatti.

Lembrando que vale sempre a pena dar uma busca em sebos e principalmente na Estante Virtual.
Além disso, no Repositório Institucional da Universidade Federal de Santa Catarina, você pode encontrar a Digital Gothic Library, onde é possível baixar gratuitamente uma edição em inglês do livro.

Edição Utilizada:
SHELLEY, Mary. Frankenstein or the Modern Prometheus. Editado com uma introdução e notas por Maurice Hindle. London: Penguin Books, 2003.

Extras:
Comentar sobre outros materiais que vão além da obra original de Shelley e que possam interessar aqueles que a leram pode ser difícil, pois muitas das discussões que a permeia são deixadas de lado nas adaptações em detrimento do caráter mais sensacionalista e aterrorizante da história. Porém, traços dessa filosofia podem ser vistos em algumas das obras que remetem ao livro. Selecionamos duas que cumprem bem esse papel.
  • O filme Mary Shelley’s Frankenstein [O Frankenstein de Mary Shelley] foi lançado em 1994 e dirigido por Kenneth Branag. É uma das adaptações cinematográficas mais fiéis à obra de Shelley e, consequentemente, mantém as discussões de caráter filosófico que adaptações, como a de James Whale, deixaram de fora. Como extra, a obra, através da referência a adaptações que recriaram e acrescentaram elementos a obra original, cria artifícios narrativos que podem causar surpresa em alguns telespectadores. A estética do filme distancia-se um pouco da que podemos estar acostumados: a presença de elementos de Steam Punk pode não agradar a todos.
  • O filme Young Frankenstein [O Jovem Frankenstein], de Mel Brooks, é uma comédia que adapta a história para o primeiro quarto do século XX. Nela, acompanhamos Frederick Fronkenstein, neto de Victor Frankenstein, que, após a morte do avô, toma posse de sua herança, tendo que se defrontar com o passado de sua família. O filme faz referência a algumas discussões presentes no livro, como a ideia de penetração nos mistérios da natureza, ao mesmo tempo que traz novas abordagens próprias do período que foi dirigido (1974), tais como debates acerca da liberdade sexual e dos papéis de gênero. Embora não seja uma cópia do original e deva muito da sua estética a outras adaptações e até mesmo ao Drácula, pode-se considerá-la um sucessor espiritual da obra de Shelley, por manter nas entrelinhas discussões filosóficas e sociológicas enquanto consegue divertir o telespectador, permitindo, assim, várias camadas de apreciação.

Aprofundando a leitura:
A bibliografia acerca de Frankenstein é enorme, abarcando as mais variadas temáticas e perspectivas. Aqui você pode conferir as leituras que fundamentaram essa resenha e um pequeno comentário sobre elas. No geral, as obras abaixo podem ser vistas como uma introdução a bibliografia sobre o tema, principalmente os textos de Hindle e de Byron/Punter.
  • BENNETT, Betty T. “‘Not this time, Victor’ Mary Shelley’s Reversioning of Elizabeth, from Frankenstein to Falkner”. In: BENNETT, Betty T. CURRAN, Stuart. Mary Shelley in her times. Baltimore, MD: Johns Hopkins University Press, 2000. - Aborda a representação do feminino na obra de Mary Shelley, fazendo uma comparação entre Frankenstein e Falkner. Este artigo e o de Mitzi Myers, no mesmo livro, podem ser lidos conjuntamente.
  • BYRON, Glennis; PUNTER, David. The Gothic. Oxford Blackwell Publishing, 2004. - Compêndio de breves comentários acerca de literatura gótica anglosaxônica. Trata dos principais elementos narrativos e literários que podem ser encontrado em obras góticas, comenta a obra de autores que podem ser de alguma forma relacionados a essa tradição literária e analisa mais profundamente obras fundamentais, inclusive Frankenstein.
  • CROOK, Nora. “Mary Shelley, Author of Frankenstein”. In: PUNTER, Daivd (org.). A new companion to the gothic. London: Blackwell Publishing, 2012. - Artigo que aborda aspectos estilísticos, morais e familiares presentes na obra de Mary Shelley como um todo. Complementa e aprofunda a abordagem feita por Hindle.
  • PUNTER, David. The Literature of Terror A History of Gothic Fictions from 1765 to the Present Day. Volume 1. The Gothic Tradition. New York, Routledge, 1996. - Nesse livro, David Punter separa o desenvolvimento da ficção gótica em blocos temáticos e cronológicos, facilitando assim análises comparativas entre diferentes autores e obras, enquanto fundamenta as principais características que perpassaram a literatura gótica em determinado período.
  • SHELLEY, Mary. Frankenstein or the modern prometheus. Editado com uma introdução e notas por Maurice Hindle. Penguin Books, 2003. - A introdução e as notas foram traduzidas para a edição da Penguin/Companhia das Letras, não sendo necessário adquirir o volume importado. Apresenta um apanhado geral de diversas abordagens que foram feitas de Frankenstein, demonstrando assim as potencialidades analíticas da obra.

A Solidão de Frankenstein
Arte de Vinícius Campos. Confira outros trabalhos pelo Instagram @banhadomar

Comentários