[RESENHA] Frankenstein, de Mary Shelley (1831)
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| Detalhe do frontispício da edição de 1831. The Morgan Library Museum. Exposiçao de 200 anos da publicação de Frankenstein. |
Frankenstein é
muito mais que
apenas uma história
de terror com uma
criatura
monstruosa feita de partes humanas, ou uma
crítica a busca do conhecimento. Dialogando
com livros,
autores
e concepções
filosóficas presentes no
cotidiano de Mary Shelley, é
uma obra instigante, que promove discussões éticas e sociais profundas,
podendo ser o ponto de partida para novas descobertas e novos saberes.
Ao
lado de
Drácula,
de Bram Stoker, dO
Médico e o Monstro,
de Robert Louis Stevenson, a história
da
empreitada do
jovem cientista Victor Frankenstein na busca por dar vida a um ser
inanimado
e
das consequências horríveis de
seus atos foi recorrentemente
adaptada
a outras mídias, tais como o
cinema, o
teatro,
a
televisão, as
histórias
em quadrinhos e até mesmo jogos de video-game. Frankenstein, de Mary Wollstonecraft Shelley, tornou-se tão conhecida que muitas pessoas pessoas, mesmo desinteressadas por
ficção gótica ou por
literatura de terror, podem
descrever
em linhas gerais o enredo e as personagens principais do livro.
No
entanto, esse contínuo processo de releitura e de apropriação das premissas básicas da
obra fizeram
com que essa imagem geral que construímos
da história ficasse cada vez mais distanciada da
versão
da autora.
Um
leitor desavisado
pode,
por
exemplo,
acreditar
ser a Criatura, e não o cientista, que carrega o nome de
Frankenstein, ou esperar
encontrar no
livro a
origem de cenas icônicas, tais
como
o delírio
eufórico do
cientista quando
vê sua criação
ganhando vida,
ou
ao
menos
acreditar
através
da
leitura que
vá
se deparar com
uma
criatura
verde, de proporções gigantescas, com
pedaços metálicos em sua cabeça,
cicatrizes espalhadas pelo corpo e
que consegue
pronunciar apenas
grunhidos. Qual,
então,
não é a surpresa desse leitor quando percebe que muito do que
frequentemente se diz
da história não originou-se diretamente do livro de 1818/1831?
Mary
Shelley, filha de duas importantes figuras públicas da época
(William Godwin, importante
pensador anarquista, escritor
de
Calleb
Williams,
e Mary Wollstonecraft, influente
radical
feminista),
foi
desde a infância ávida leitora das mais variadas obras literárias
e filosóficas, como
atestam
algumas das cartas de seu pai.
À
criação
em um ambiente social e intelectual rico, no qual personalidades
como o
poeta
Samuel Taylor Coleridge, autor
de
The Rime of the Ancient Mariner,
e cientistas como Humphry Davy, químico
pesquisador de fenômenos elétricos,
poderiam
ser encontradas confraternizando
na
casa
de sua família,
soma-se
o incentivo a atividade literária por parte de figuras
como Percy Bysshe Shelley e Lord Byron.
Diante
desse contexto histórico e social culturalmente rico e diverso, não seria
de se estranhar que
Frankenstein
fosse
impregnado por
inúmeras
referências a outros
livros
de literatura mundial e a sistemas filosóficos com
os quais
sua
autora
entrou em contato, que
tornaram a obra
muito mais profunda
do que uma mera história de horror,
como pode parecer se levarmos em conta apenas suas adaptações
subsequentes.
No
livro de Mary,
estão presentes referências
a poemas épicos ingleses, a
filosofia de língua francesa e
até
a
produção literária do círculo
social íntimo
de sua autora. O objetivo desta Resenha
é, então, enumerar alguns desses diálogos e mostrar como estão presentes em Frankenstein,
expondo como serviram de base intertextual para as reflexões pessoais da autora, e como,
ainda hoje, podem servir aos leitores como centelha para novas
discussões e interesses.
Começando
com os
diálogos
que Mary fez a uma das figuras mais próximas socialmente e
emocionalmente dela: Percy Bysshe Shelley, tido
por
alguns estudiosos
não apenas como
de grande importância
filosófica, por
compartilharem entre si muitas experiências de leitura e de socialização,
mas
como base para a construção do protagonista de Frankenstein.
Na
história, Victor
é retratado
como um indivíduo idealista e sonhador, que tem na busca por
conhecimentos ocultos sobre
a vida
e na salvação da humanidade das
mazelas da morte
os principais combustíveis que o levam a animar a Criatura.
Embora de temperamento volátil que frequentemente direciona-se a melancolia e ao arrependimento, como se percebe pelas
suas
variações
de humor ao
interagir com
o monstro e ter conhecimento das consequências dos atos deste,
ele é capaz de absorver a beleza da natureza, entrando
em um contato extremamente íntimo com ela, como nos é permitido
observar particularmente nas cenas em que, deitado no fundo de um
barco, admira o céu estrelado, ou quando observa a beleza
das montanhas no trajeto que precede o encontro no gelo. Tais hábitos unidos à personalidade sonhadora mais ampla do cientista faziam parte da identidade de
Percy, como atestam anotações biográficas. Ideologicamente,
também, eles eram semelhantes,
pois
ambos compartilhavam da imagem idealizada
quanto a busca desenfreada pelo conhecimento, ignorando em
grande medida as
consequências práticas que essa perspectiva poderia gerar.
Quando
esta
ânsia desenfreada pelo saber era direcionada
para a nascente ciência moderna, a
questão era ainda mais profunda, pois não apenas Percy,
mas
uma
parcela da sociedade inglesa
parecia
defender a busca pelo saber acima de outros valores sociais,
como fica claro por
escritos científicos como os de Humphry Davy, que
defendiam a
violação dos mistérios da Mãe Natureza, ou por experimentos
moralmente
controversos, como
as tentativas de dar vida a seres inanimados através da
eletricidade, realizados por Giovanni
Aldini. Tratava-se, portanto, de um estado de espírito da época, que poderia ser percebido nas mais diversas ocasiões e áreas do conhecimento por todos aqueles que mantivessem contato com grupos que promovessem essas buscas.
Mary
Shelley, leitora voraz como era e inserida em circulos sociais ricos como foi ao longo da vida, tinha
conhecimento
dessa
conjuntura
social ampla
e
dos parâmetros ético e morais nos quais a ciência se sustentava,
como
se verifica por anotações em seu diario e em cartas das conversas que realizava com pessoas
como Percy ou Byron. Através de Frankenstein, procurou,
entre outras coisas, refletir sobre
os danos que
este tipo de comportamento e frenesi social poderia causar
às
pessoas e ao coletivo.
Como base para argumentação implícita no livro, utilizou-se em grande medida das propostas filosóficas de seu pai, que defendiam que todo e qualquer conhecimento teria apenas sentido se fosse desenvolvido de modo a beneficiar a sociedade como um todo. Godwin acreditava que o homem era um ser perfeito e sociável, argumentando que, enquanto instituições positivas, tais como a religião e o matrimônio, promoviam comportamentos autoritários e encaminhavam a sociedade por um caminho obscuro, era dever do indivíduo insistir no convívio em comunhão, pois só através das relações humanas a eterna benevolência intrínseca à humanidade poderia se desenvolver e encaminhá-la à glória. Segundo sua visão, toda a ação humana deveria ser norteada por esses princípios coletivos, para que se alcançasse a justiça e o desenvolvimento histórico. Tudo que fugisse a isso (o egoísmo e o isolamento, por exemplo), provocaria perdas e miséria.
Como base para argumentação implícita no livro, utilizou-se em grande medida das propostas filosóficas de seu pai, que defendiam que todo e qualquer conhecimento teria apenas sentido se fosse desenvolvido de modo a beneficiar a sociedade como um todo. Godwin acreditava que o homem era um ser perfeito e sociável, argumentando que, enquanto instituições positivas, tais como a religião e o matrimônio, promoviam comportamentos autoritários e encaminhavam a sociedade por um caminho obscuro, era dever do indivíduo insistir no convívio em comunhão, pois só através das relações humanas a eterna benevolência intrínseca à humanidade poderia se desenvolver e encaminhá-la à glória. Segundo sua visão, toda a ação humana deveria ser norteada por esses princípios coletivos, para que se alcançasse a justiça e o desenvolvimento histórico. Tudo que fugisse a isso (o egoísmo e o isolamento, por exemplo), provocaria perdas e miséria.
As
teorias “godwinianas” se relacionam as
de
outro filósofo
fundamental
para Mary
Shelley:
Jean-Jacques Rousseau. Embora
a influência da filosofia para a
narrativa de
Frankenstein
seja
melhor
discutida
em outro ensaio
publicado aqui da Revista
(ainda em fase de preparação), será interessante tratar
apenas em linhas gerais da
concepção rousseauniana
de formação individual. Rousseau foi o responsável pela
secularização (retirada
do âmbito religioso e aplicação em outros aspectos sociais) da
teoria da inocência cristã; segundo
o filósofo, o homem nasceria inocente e, consequentemente,
bom, mas a convivência com outros indivíduos e outras instituições
poderia
corrompê-lo,
tal como
defendia Godwin. Esta visão estaria presente em Frankenstein
quando, por exemplo, a
Criatura
afirma
ser um indivíduo bom, que nunca desejou o mal a ninguém, mas que
foi submersa em sentimento de vingança e de destruição por
causa
das ações que sofreu de outras pessoas, como
a
reação da família da
cabana ou, principalmente, o abandono egoísta
que
sofreu de Victor, seu criador e protetor. Através
dessa e de outras passagens, Mary
está tentando exemplificar e reforçar as visões desses dois
filósofos, de
modo a fundamentar sua crítica,
que mais
adiante tornaremos mais nítida.
A
partir da identificação dessas referências filosóficas, podemos abordar uma das principais imagens que se criou acerca do
livro de
Mary Shelley. É comum, em rápidas buscas na internet, entrarmos em
contato com comentários que
destaquem um suposto aspecto reacionário da obra, que seria marcada pela crítica pura ao progresso científico e ao conhecimento. Tais
análises procedem?
Para muitos leitores, a noção mais geral que a história
transmite
é a de que através dela
a
autora
procurou defender
perspectivas
conservadoras,
afinal, é
facilmente perceptível no livro uma
mensagem de caráter moral, e basta uma rápida reflexão sobre as consequências às quais Victor se submete após dar vida à Criatura para percebermos que grande parte da crírica da obra se dirige a essa empreitada.
No
entanto, é necessário termos em vista especificamente a quais
aspectos mostrados na narrativa Mary está dirigindo suas
considerações.
A
ideia de que o progresso científico é o grande inimigo da sociedade
só
se fundamenta se negadas uma série de pormenores presentes na obra, muitos deles expostos
anteriormente e outros que trabalharesmos a seguir.
A
relação
que há entre Frankenstein
e o poema The
Rime of the Ancient Mariner (declamado pelo próprio autor a Mary quando esta era apenas uma criança) pode ser tida como uma das bases sobre a qual se
desenvolveu essa visão recorrente. No poema, um marinheiro
narra como, amaldiçoado por espíritos sobrenaturais por ter matado
um albatroz enviado
por Deus
para
salvar seu
navio
dos mares da Antártica,
foi obrigado a vagar eternamente pelo mundo contando sua história de
modo a evitar
que
outros indivíduos cometessem os mesmos erros. Os
paralelos
são evidentes:
assim como o marinheiro do poema, Victor parece ter
sido condenado a sofrer eternamente pelo erro de ter dado vida à
Criatura; a
diferença é que,
enquanto a ingratidão é o maior erro para Coleridge, para Mary seria
a busca irrefreável do conhecimento o fator que deveria ser evitado
e punido. No
livro,
tanto Victor
quanto Walton (narrador da história) possuem esse impulso, e ambos estão
sendo punidos por possuírem-no:
o capitão, que
escreve as cartas que compõe a narrativa,
encontra-se preso ao gelo Ártico
por tentar ser um dos primeiros a alcançar o Polo Norte, enquanto o
cientista chega ao navio por
causa da fatídica busca por sua criação.
Para reforçar a
crítica a busca pelo conhecimento,
teríamos
ainda
o fato de que:
1)
a todo o momento que o narrador propõe que Victor conte o segredo
por trás do processo de reanimação, este
alerta para os riscos de se desejar mais do que se deve; e
2) o
fato do navio de Walton só ser liberto do gelo quando este
resolve
abandonar a jornada
e, consequentemente, sua ganância.
Dando
continuidade à
defesa
do aspecto conservador,
teríamos então dois outros diálogos importantes para a construção do livro: as
referências ao
Mito de Prometeu e ao
Mito da Criação.
A
versão romana
do primeiro, presente
na obra
Metamorfoses
de Ovídio (lida
pelos Shelley),
seria
a de que o Titã
Prometeu, por
dar
vida a criaturas inanimadas feitas de argila utilizando-se
do fogo dos deuses,
foi
condenado a ficar eternamente
acorrentado a uma montanha, enquanto uma ave comeria todo dia
seu fígado, que regeneraria durante a noite. A trajetória de Victor seria uma alegoria deste mito, cuja utilização por Mary, teoricamente, reforçaria a mensagem de que o homem não poderia almejar poderes e
segredos
que só seriam direito
de Deus,
como,
segundo ela, estaria ocorrendo das
ações de cientistas como Humphrey e Aldini.
Por
sua vez, a
literatura cristã reforçaria o aspecto moralista e
reacionário
de
Frankenstein.
No Mito de Criação, presente
no Gênesis
da Bíblia,
é relatado
como Adão e Eva foram expulsos dos Jardins do Éden por
terem provado a fruta
do conhecimento, proibida
aos humanos.
Ora, o conhecimento seria, novamente,
visto como
um direito restrito
a
Deus; logo, a busca empreendida
pela ciência, uma busca, como dito anteriormente, violadora e
que poderia por em risco a onipotência de Deus,
seria um pecado aos moldes dos que levaram a expulsão do primeiro
casal, principalmente se levarmos em conta que
o maior objetivo de Victor é imputar vida artificial em seres
inanimados.
Portanto,
seria
a partir desses três referencias presentes na obra (o
poema
The
Rime of the Ancient Mariner,
o Mito de Prometeu e o Mito da Criação)
que muitos leitores podem imputar na obra de Mary Shelley um aspecto conservador, de crítica pura e objetiva ao progresso científico e a busca pelo conhecimento.
No
entanto, é
necessário notar algumas nuances que podem passar despercebidas em
uma leitura desatenta. Por exemplo, a narrativa cristã
em
Frankenstein
não
é baseada
na
versão
da
Bíblia, mas sim na
do
poema Paraíso
Perdido,
de John Milton, referenciado
não apenas externamente, mas também “internamente”, pois é
este um dos livros lidos pela Criatura na cabana.
Neste
épico, é desenvolvida uma releitura moderna do
Mito da Criação: por
exemplo, no poema há um momento no qual Adão critica o fato de ter
sido criado por Deus sem
um propósito, mostrando as dificuldades advindas dessa condição.
Esta consideração é
ecoada pela Criatura e pelas situações por ela vivenciadas:
criado por Victor sem saber os motivos e fadado a vagar pelo mundo
sem propósito, sua personalidade inocente e boa acaba por ser
corrompida em
decorrência do desespero e da miséria.
Relacionando
essa passagem às considerações filosóficas relativas a importância da
sociedade para o desenvolvimento da Criatura, fruto da reapropriação das teorias de Godwin e Rousseau,
podemos,
então,
defender
que o problema exposto por Shelley não é a busca pelo conhecimento,
mas sim uma busca por conhecimento alheia a interesses sociais e
distante do contato benéfico da sociedade, uma
busca marcada pelo egoísmo e pelo abandono.
O fato de Victor ser atormentado por sua criação não é decorrência de ter almejado mais do que deveria, repetindo os erros expostos nos mitos de Prometeu e da Criação, mas sim por ter desejos egoístas, por ter acreditado que sozinho, e não em sociedade, seria capaz de retirar a morte da lista de medos da humanidade. Ao mesmo tempo, ao renegar sua Criatura, o criador permite que ela seja remodelada de maneira perversa e negativa, tal qual ocorreria segundo as visões dos dois filósofos. Dessa maneira, o objetivo por trás da narrativa de Victor não é alertar para os perigos da ciência e do conhecimento científico, como inicialmente se supõe, mas, sim, criticar uma ciência egoísta, que desconsidere os desejos e as demandas das pessoas ao redor. Mary Shelley faz das palavras e dos erros de Victor sua maneira de alertar a sociedade inglesa do precipício que estaria diante dela caso se perdesse de vista o fator humano que deveria reger o avanço científico.
O fato de Victor ser atormentado por sua criação não é decorrência de ter almejado mais do que deveria, repetindo os erros expostos nos mitos de Prometeu e da Criação, mas sim por ter desejos egoístas, por ter acreditado que sozinho, e não em sociedade, seria capaz de retirar a morte da lista de medos da humanidade. Ao mesmo tempo, ao renegar sua Criatura, o criador permite que ela seja remodelada de maneira perversa e negativa, tal qual ocorreria segundo as visões dos dois filósofos. Dessa maneira, o objetivo por trás da narrativa de Victor não é alertar para os perigos da ciência e do conhecimento científico, como inicialmente se supõe, mas, sim, criticar uma ciência egoísta, que desconsidere os desejos e as demandas das pessoas ao redor. Mary Shelley faz das palavras e dos erros de Victor sua maneira de alertar a sociedade inglesa do precipício que estaria diante dela caso se perdesse de vista o fator humano que deveria reger o avanço científico.
Para
reforçar essa nossa visão, abordemos mais algumas passagens da
história.
Por exemplo, a descrição do isolamento
ao qual Victor
se impôs ao longo de dois anos, negligenciando a
universidade, sua
família, seus amigos em prol da sua criação (demonstrando assim
sua alienação social); a ausência de ensinos humanistas, das leis e da história, na educação do cientista enquanto este era uma
criança;
ou a salvação de Walton e sua tripulação descortinando-se simbolicamente quando ele resolve abdicar de desejos
que estavam colocando em risco seus colegas, desejos,
portanto, egoístas. Essas passagens demonstram a importância para Mary do social para a formulação de sua
crítica: estando presente na história, esse aspecto passa a
fundamentar a argumentação que a permeia.
Assim,
reverberando
a mensagem de seu pai, e apresentando os limites das concepções de
seu esposo,
Mary Shelley não desejava negar a ciência ou os benefícios que
dela poderia advir, mas alertar para uma possível negligência do
valor ético e social
que deveria reger as descobertas contemporâneas. Sua
obra, portanto, não seria de
um reacionarismo simplista, já que teria
um ar progressista, ao mostrar caminhos que garantiriam a justiça e
os benefícios da
ciência.
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| Detalhe que mostra uma citação do Paraíso Perdido, de John Milton no frontispício da edição de 1818. [Pedi eu a ti, Criador, que de minha argila/ Me fizesse homem? Solicitei eu a ti/ Que da escuridão me levantasse?] The Morgan Library Museum. Exposiçao de 200 anos da publicação de Frankenstein. |
O aspecto progressista de Frankenstein pode ser ainda observado sob outras perspectivas, que não desenvolveremos para não cansar o leitor. Resta por fim apenas citar de passagem algumas outros diálogos presentes na obra: a estrutura epistolar (coletânea de cartas) do livro tem como principal influência o autor Samuel Richardson, e o aspecto de Caixa Chinesa (histórias inseridas uma dentro da outra) remete ao livro Des Gespensterbuch, de F. Schulze e J. Apel, uma coletânea de histórias de fantasma. Além disso, há uma série de materiais biográficos que mostram que Mary Shelley leu muitas novelas góticas, dentre as quais O Italiano e Os Mistérios de Udolpho, de Ann Radcliffe, O Monge, de Mathew Lewis, Wieland e Arthur Melvyn, de Charles Brockden Brown, e Vathek, de William Beckford. Aspectos desses materiais podem ser percebidas na obra de Mary Shelley como um todo. Por fim, como não poderia deixar de ser, Mary Shelley leu em primeira mão muitos dos poemas de PErcy Shelley e Lord Byron, e influências deles podem ser vistos em vários de seus escritos.
Mas
antes
de passarmos as considerações finais, desejo apenas deixar três
coisas claras. A primeira é que a visão aqui desenvolvida acerca do
Frankenstein
não é única e definitiva. Ela partiu principalmente da leitura da
obra e de comentadores desta por parte do autor, e não procura ser definitiva. A segunda consideração
é um desdobramento da primeira: a obra de Mary no geral é
bastante profunda e complexa, chegando
até mesmo a ser contraditória em muitos aspectos,
o que continuamente
permite novas leituras.
A terceira é que, apesar de procurarmos nesta
resenha
enumerar as referências que foram de alguma serventia para a escrita
do livro, não procuramos aqui imputar que ele não seja
original ou que sua autora tenha meramente copiado elementos externos: as obras de Mary Shelley não são decorrência direta daquilo que
lhe foi dito e mostrado, são fruto das considerações pessoais da autora e das próprias reflexões; não pretendemos,
principalmente, apagar sua importância frente a figuras que a
cercaram, como Percy Shelley e William Godwin, apesar das relações
sociais que estes possuíam com ela.
Concluindo. Podemos
pensar que a obra de Shelley
apresente-se como a própria criatura que ganha vida
em suas páginas: uma união de várias filosofias, referências e
autores, mas que
age e fala
de maneira autônoma,
desenvolvendo
argumentações e reflexões inovadoras.
Frankenstein
não é
um ponto de chegada de sua época, uma união e síntese de outros
sistemas
de pensamento,
mas sim um ponto de partida para novas discussões, novos
conhecimentos e novos interesses. Seu valor reside na sua riqueza e
complexidade, que pode permitir que nos entretemos com o
aspecto dramático e trágico do
horror descrito nas ações de Frankenstein e sua Criatura;
que
reflitamos sobre a narrativa, acompanhando as discussões que a
própria autora
propôs
através dela, como é o exemplo
das considerações acerca do progresso científico;
ou
que a utilizemos como ponto de partida para a leitura e
o aprofundamento de outros autores, como
é o exemplo do que foi realizado em outro ensaio presente neste blog
(ainda
em fase
de preparação). A
demonstração
desses três aspectos reforça o objetivo central desta resenha:
incentivar o leitor a ir atrás de novas
obras e a mergulhar ainda mais na ficção gótica e sua
complexidade.
A riqueza de Frankenstein
incentiva
esta busca.
***
Qual
edição ler?
Frankenstein
foi extensamente revisado e ampliado por Mary Shelley entre a 1ª
edição (1818) e a 3ª edição (1831). Das duas, a última foi a mais utilizada para reedições e traduções, tornando-se a mais conhecida do público. Normalmente, quando a primeira edição é utilizada como base, é informado na capa ou até mesmo no subtítulo da publicação em questão.
No
Brasil, a obra foi amplamente reeditada, pelas mais diversas casas
editoriais e com os mais diversos acabamentos e apuros acadêmicos, o
que faz com que as opções sejam inúmeras, agradando aos mais
diferentes gostos e propostas. Particularmente, nós da revista costumamos valorizar
edições mais críticas, que possuam notas de rodapé e introduções,
além de serem traduzidas por profissionais
mais
conhecidos e mais experientes. Diante disso, recomendamos:
- Para uma edição mais crítica e trabalhada graficamente, as duas versões da Zahar (tradução de Santiago Nazarian) são uma ótima escolha.
- A edição comentada conta com apresentação, notas e uma cronologia da vida e obra da autora; além disso, nos anexos estão presentes a introdução de Shelley a 3ª edição e o prefácio de Percy Bysshe Shelley à 1ª edição. Capa dura.
- A edição de bolso, mais simples e barata, conta com apenas a apresentação, mas é fisicamente menor, embora o texto seja também integral, o que facilita caso seu interesse seja deixá-la na sua bolsa ou mochila para ler durante folgas ou no transporte público. Também em capa dura.
- O melhor custo-benefício fica a cargo da edição da Penguin/Companhia das Letras. Conta com tradução de Christian Schwartz, uma das melhores no mercado, introdução e notas de Maurice Hindle e posfácio de Ruy Castro. Junto a edição da Zahar, é a de melhor apuro técnico quanto ao trabalho do texto, mas não possui tanto acabamento gráfico, já que segue o padrão da série "Classics" da Penguin internacional. Como extras, essa edição conta com o prefécio de Percy à 1ª edição, a introdução da autora à 3ª edição, notas comparativas entre a edição de 1818 e 1831, um fragmento de Lord Byron e com o conto O Vampiro, de Polidori.
- Se o seu foco é o acabamento gráfico, a versão da Darkside Books é uma ótima opção. A editora é bem conhecida pelo acabamento estético que dá aos seus livros, e Frankenstein não é exceção, pois conta com capa dura em relevo e ilustrações de Pedro Franz. Além disso, seu catálogo conta com várias obras de horror clássico, inclusive Drácula e coletânea de contos de Edgar Allan Poe, o que pode ser interessante para quem quer começar uma nova coleção na estante. Esta edição conta com a tradução de Márcia Xavier de Brito e tem como extra quatro contos de Shelley que também remetem ao tema da imortalidade (Valério: O Romano Reanimado; Roger Dodworth: O Inglês Reanimado; Transformação; e O Imortal Mortal) todos traduzidos por Carlos Primatti.
Lembrando
que vale sempre a pena dar uma busca em sebos e principalmente na Estante Virtual.
Além disso, no Repositório Institucional da Universidade Federal de Santa Catarina,
você pode encontrar a Digital Gothic Library, onde é possível
baixar gratuitamente uma edição em inglês do livro.
Edição
Utilizada:
SHELLEY,
Mary. Frankenstein or the
Modern Prometheus.
Editado com uma introdução e notas por Maurice Hindle. London:
Penguin
Books, 2003.
Extras:
Comentar
sobre outros materiais que vão além da obra original de Shelley e
que possam interessar aqueles que a leram pode ser difícil, pois
muitas das discussões que a permeia são deixadas de lado nas
adaptações em detrimento do caráter mais sensacionalista e
aterrorizante da história.
Porém, traços dessa filosofia podem ser vistos em algumas das
obras que remetem ao livro. Selecionamos duas que cumprem bem esse papel.
- O filme Mary Shelley’s Frankenstein [O Frankenstein de Mary Shelley] foi lançado em 1994 e dirigido por Kenneth Branag. É uma das adaptações cinematográficas mais fiéis à obra de Shelley e, consequentemente, mantém as discussões de caráter filosófico que adaptações, como a de James Whale, deixaram de fora. Como extra, a obra, através da referência a adaptações que recriaram e acrescentaram elementos a obra original, cria artifícios narrativos que podem causar surpresa em alguns telespectadores. A estética do filme distancia-se um pouco da que podemos estar acostumados: a presença de elementos de Steam Punk pode não agradar a todos.
- O filme Young Frankenstein [O Jovem Frankenstein], de Mel Brooks, é uma comédia que adapta a história para o primeiro quarto do século XX. Nela, acompanhamos Frederick Fronkenstein, neto de Victor Frankenstein, que, após a morte do avô, toma posse de sua herança, tendo que se defrontar com o passado de sua família. O filme faz referência a algumas discussões presentes no livro, como a ideia de penetração nos mistérios da natureza, ao mesmo tempo que traz novas abordagens próprias do período que foi dirigido (1974), tais como debates acerca da liberdade sexual e dos papéis de gênero. Embora não seja uma cópia do original e deva muito da sua estética a outras adaptações e até mesmo ao Drácula, pode-se considerá-la um sucessor espiritual da obra de Shelley, por manter nas entrelinhas discussões filosóficas e sociológicas enquanto consegue divertir o telespectador, permitindo, assim, várias camadas de apreciação.
Aprofundando a leitura:
A bibliografia acerca de Frankenstein é enorme, abarcando as mais variadas temáticas e perspectivas. Aqui
você pode conferir as leituras que fundamentaram essa resenha e um pequeno comentário sobre elas. No geral, as obras abaixo podem ser vistas como uma introdução a bibliografia sobre o tema, principalmente os textos de Hindle e de Byron/Punter.
- BENNETT, Betty T. “‘Not this time, Victor’ Mary Shelley’s Reversioning of Elizabeth, from Frankenstein to Falkner”. In: BENNETT, Betty T. CURRAN, Stuart. Mary Shelley in her times. Baltimore, MD: Johns Hopkins University Press, 2000. - Aborda a representação do feminino na obra de Mary Shelley, fazendo uma comparação entre Frankenstein e Falkner. Este artigo e o de Mitzi Myers, no mesmo livro, podem ser lidos conjuntamente.
- BYRON, Glennis; PUNTER, David. The Gothic. Oxford Blackwell Publishing, 2004. - Compêndio de breves comentários acerca de literatura gótica anglosaxônica. Trata dos principais elementos narrativos e literários que podem ser encontrado em obras góticas, comenta a obra de autores que podem ser de alguma forma relacionados a essa tradição literária e analisa mais profundamente obras fundamentais, inclusive Frankenstein.
- CROOK, Nora. “Mary Shelley, Author of Frankenstein”. In: PUNTER, Daivd (org.). A new companion to the gothic. London: Blackwell Publishing, 2012. - Artigo que aborda aspectos estilísticos, morais e familiares presentes na obra de Mary Shelley como um todo. Complementa e aprofunda a abordagem feita por Hindle.
- PUNTER, David. The Literature of Terror A History of Gothic Fictions from 1765 to the Present Day. Volume 1. The Gothic Tradition. New York, Routledge, 1996. - Nesse livro, David Punter separa o desenvolvimento da ficção gótica em blocos temáticos e cronológicos, facilitando assim análises comparativas entre diferentes autores e obras, enquanto fundamenta as principais características que perpassaram a literatura gótica em determinado período.
- SHELLEY, Mary. Frankenstein or the modern prometheus. Editado com uma introdução e notas por Maurice Hindle. Penguin Books, 2003. - A introdução e as notas foram traduzidas para a edição da Penguin/Companhia das Letras, não sendo necessário adquirir o volume importado. Apresenta um apanhado geral de diversas abordagens que foram feitas de Frankenstein, demonstrando assim as potencialidades analíticas da obra.
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| A Solidão de Frankenstein Arte de Vinícius Campos. Confira outros trabalhos pelo Instagram @banhadomar |



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