[RESENHA] Vathek, de William Beckford


Detalhe: frontispício da edição de 1834, publicada por Richard Bentley
A imagem pode ser acessada aqui.
Após atitudes hediondas, o grande Califa Vathek finalmente adentra o Palácio Subterrâneo de Eblis, saciando sua curiosidade eterna caminhando pelo infinito salão que abriga infinitos conhecimentos. O que ele não esperava é que um terrível destino, mais mortificante que seus crimes, estaria a sua espera, levando-o a questionar os limites da ambição humana e da busca por conhecimento.









Imagine, se em meio a vampiros, fantasmas, cemitérios e rituais de magia negra fossem colocados camelos, eunucos, desertos, haréns, e muitos outros elementos comuns a obras orientalistas, criando assim uma história que misturasse o terror característico da ficção gótica setecentista com o melhor dos contos das Mil e uma Noites.
Vathek, escrito por William Beckford em 1782, é uma das mais conhecidas tentativas de conciliar esses dois universos literários. Historicamente, o livro se insere no momento em que muitos autores buscavam, por meio de um olhar a um passado idealizado, retomar temáticas maravilhosas e desenvolver um novo modelo literário que unisse o fantástico romanesco e a densidade psicológica moderna enquanto se contrapunham ao realismo racionalista e à perspectiva iluminista dominantes na literatura da época. Em síntese, a história acompanha Vathek, um poderoso califa que, após receber misteriosas espadas encrustadas de sinais incompreensíveis, vê-se tentado a viajar até um lendário palácio subterrâneo no qual poderia apaziguar sua curiosidade infindável; em meio a essa jornada, deparamo-nos com situações sobrenaturais e grotescas que despertam terror e angústia. O foco dessa resenha é a “crise de identidade” presente no livro, fruto da união entre esses dois universos literários, a maneira como a forma e conteúdo da obra foram desenvolvidas, e a experiência que se têm ao lê-la.
Comecemos pela construção diacrônica das personagens ao longo das páginas. De maneira geral, no início do enredo, elas remetem diretamente aos contos árabes: Vathek é descrito como um califa majestoso, porém severo; sua mãe, Carathis, como uma princesa perspicaz; e o grão-vizir, Morakanabad, como sensato e justo. Conforme a narrativa avança, o livro começa a atribuir à tais personagens características próprias da ficção gótica: Carathis transforma-se em uma progenitora tirânica, mestre de magias negras e que fará de tudo para ver realizado o destino de seu filho; Vathek, por sua vez, começa a apresentar em determinados momentos traços de herói romântico; e Morakanabad se aproxima da personagem do clérigo fraco que não possui forças para tomar suas próprias decisões e fica a mercê das atitudes dos antagonistas.
A partir dessa descrição superficial, a história aparenta ter poucos problemas, já que é comum em diversas obras que os personagens evoluam e se desenvolvam, contribuindo no desenvolvimento narrativo. Porém, a grande questão em Vathek é compreender a maneira pela qual Beckford pôs em prática essas metamorfoses, fruto da tentativa do autor em unir o gótico ao oriental, e as consequências, no caso, negativas, de tal movimento para a maneira como a narrativa é construída e estruturada, e para a impressão que temos lendo a obra.
Muitos leitores podem ver tais metamorfoses e alternâncias identitárias como resultados da profundidade psicológica que Beckford procurou empregar no livro: afinal, não é possível imaginar que os atos cometidos pelo califa ou por sua mãe não criem mudanças em suas personalidades ou naqueles que os rodeiam. No entanto, tais crimes, ou qualquer outro “motivador” de mudanças, não desempenham seu papel de maneira clara e objetiva, falhando em justificar logicamente a transformação das personagens, como é o caso de Carathis e, ainda mais, de Morakanabad, cujas mudanças parecem superficiais e precipitadas. De maneira sucinta, é como se os crimes, ou quaisquer outros acontecimentos, não contribuíssem para o desenvolvimento da narrativa e, principalmente, para o foco moralista da obra (mais sobre isso a seguir), fazendo com que a mudança das personagens ocorra, ao nosso ver, de maneira superficial, extinguindo toda a complexidade que pudesse gerar uma profundidade psicológica.
A sensação após nos depararmos com essas personagens é a de que elas existem unicamente com o objetivo de dirigir comodamente a narrativa a um ponto pré-determinado; e o fato de percebermos a mão do autor é sinal de sua incapacidade em compor uma história que possua uma lógica e uma coesão interna, já que, por causa disso, a história ganha um ar de artificialidade, perdendo suas qualidades artísticas e literárias. Os méritos que Beckford buscou alcançar ao unir a estética gótica e da estética árabe são postos em xeque, já que, como passamos aos poucos a não nos importar com as personagens, pois não nos identificamos com elas, já que são artificiais, e como não nos envolvemos com aquilo que nos está sendo contado, a experiência de leitura se torne enfadonha, havendo, numa esfera mais profunda de análise, a perca do fator pedagógico dos contos orientalistas publicados na Europa e o terror frente ao inquietante próprio da novela gótica, levando-nos a considerar que, ao menos quanto ao conteúdo, o livro falha em apresentar um bom exemplar de conto árabe de terror, pois, justamente, falha em alcançar pontos ideológicos centrais dessas estéticas.
Quanto aos ornamentos que adornam as personagens e os acontecimentos, o resultado dessa fusão entre gótico e árabe é mais interessante. No início do livro, são-nos apresentado elementos próprio do universo das Mil e uma Noites, tais como um ambiente mítico e grandioso (palácios, oásis, torres) situados em uma temporalidade incerta (não conseguimos situar em quais anos a história se passa e nem quanto tempo dura), elementos que geram um sentimento de transcendência moral quase religiosa a partir do sublime. Gradualmente, a narrativa passa a apresentar elementos góticos: busca-se o terror através de elementos sobrenaturais inexplicáveis (aparecem cemitérios, vampiros, e rituais grotescos de magia negra, por exemplo). E, por fim, no clímax da narrativa (a chegada da comitiva em Istakhar e a entrada do casal no palácio subterrâneo) o universo árabe e o gótico se misturam em um todo harmônico e bem estruturado: têm-se os elementos grotescos e inexplicáveis que buscam gerar terror nas personagens e nos leitores (como os moradores que andam constantemente com a mão sobre o coração) unidos ao sublime idílico e revigorante (um ambiente de conhecimentos infinitos e dimensões imensuráveis), dando origem ao novo: a estética árabe de terror.
É com incrível pesar, no entanto, que percebemos que tal triunfo estético, que nos permite divisar o resultado geral que a obra poderia ter alcançado caso fosse constituída de outra maneira, é rapidamente posto de lado em detrimento de uma mensagem moralista que, assim como ocorre por meio da análise da narrativa e das personagens, nos leva a crer estar o autor incerto quanto ao direcionamento do livro e a melhor maneira de alcançar seus ideais.
A moral em questão é a de que “não devemos buscar transgredir os limites impostos pelo Criador”, fazendo alusão à curiosidade infindável de Vathek e suas consequências criminosas. No entanto, o problema reside no fato de que essa moral não condiz com o que nos é apresentado pela narrativa e, principalmente, pela evolução das personagens: embora as ações de Vathek e Carathis sejam aos nossos olhos moralmente criminosas e dignas de uma severa punição, o próprio livro parece não dar a devida atenção, já que há uma aura de artificialidade que as rodeia, retomando, assim, o problema da ruptura lógica e causal entre narrativa e personagens, trabalhados anteriormente. Dessa maneira, ao longo da leitura, damos pouca atenção aos crimes de Vathek e de Carathis, pois estes parecem pouco importantes, já que suas consequências são irrelevantes, para ao final, além de nos ser dito que elas são fundamentais, percebermos que a estética sublime que é alcançada a duras penas é abandonada e negligenciada por uma moral superficial e pouco convincente, fazendo-nos abandonar a contragosto uma das melhores partes do livro: a estadia dos protagonistas do salão do palácio subterrâneo, ao mesmo tempo que todo o problema discutido anteriormente voltem a tona, dessa vez no clímax da obra, garantindo, assim, uma sensação ruim ao terminarmos a leitura do livro.

Dessa maneira, embora se trate de um livro extremamente inovador para a época ao juntar dois universos literários distintos, dando origem à primeira história árabe de terror, como obra isolada, Vathek deixa a desejar. Não se trata nem de um conto das Mil e uma Noites “clássico”, nem uma novela gótica “tradicional”, o que não seria um problema, se fosse, no final das contas, a junção de bons elementos dessas duas “escolas”, proposta que procura alcançar, mas, em grande parte, não é bem sucedido, apresentando bons ornamentos e grande inventividade criativa por meio de situações inspiradas e de elementos criativos, sublimes e aterrorizantes, mas que não são sustentados por uma estrutura firme que promova um desenrolar coeso da narrativa.

***

Onde encontrar o livro:
  • Atualmente fora de catálogo, Vathek pode ser facilmente encontrado em sebos. Vale a pena procurar em sites como a Estante Virtual pelos melhores preços, sendo a edição da L&PM a de melhor custo-benefício no momento.

Extras:
  • O músico espanhol Luis Delgado compôs um álbum de música ambiente inspirado na obra de Beckford. Clicando aqui você acessa a playlist do YouTube com todas as faixas.

Edição Utilizada:
BECKFORD, William. Vathek. 3ª Ed. Porto Alegre: L&PM, 2007.

Bibliografia:
BIRKHEAD, Edith. The Tale of Terror. London: Constable & Company Ltd. 1922.
BYRON, Glennis; PUNTER, David. The Gothic. Oxford: Blackwell Publishing, 2004.
FREUD, Sigmund. “O Inquietante”. In. FREUD, Sigmund. Freud (1917-1920) “O Homem dos Lobos” e Outros Textos. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
MISHRA, Vijay. “The Gothic Sublime”. In. PUNTER, David (org.) A New Companion to the Gothic. London: Blackwell Publishing, 2012

Vathek, and his mother Carathis, consult the planets.
Etching by A. H. Torriere after W. Beckford.

Comentários