[RESENHA] O Castelo de Otranto, de Horace Walpole
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| Uma História Gótica. Detalhe do frontispício da 2ª edição inglesa. O arquivo completo pode ser encontrado na página da Brithish Library, clicando aqui. |
O Castelo de Otranto é atualmente a mais conhecida obra de seu criador, Worace Walpole: figura pública de destaque nos círculos sociais de elite durante os anos de 1700, grande apreciador da literatura e arquitetura medieval no geral, excêntrico cavalheiro inglês, e um dos precursores da cultura gótica moderna. De enorme impacto estilístico e cultural, apreciada e desdenhada por muitos críticos e leitores da época e das décadas seguintes e sendo reeditada inúmeras vezes e traduzidas para diversas línguas, essa breve narrativa gótica, de cerca de 100 páginas, teve enorme influência estilística e narrativa em autores que, futuramente, seriam englobados no que se convencionou chamar de tradição gótica, tais como: Clara Reeve e seu O Velho Barão Inglês, Ann Radcliffe e seu Os Mistérios de Udolpho e O Italiano, e Matthew Lewis, escritor dO Monge são alguns exemplos a serem listados.
Escrito
em 1764, O Castelo de
Otranto foi
pensado para ser uma
inovação literária para
a época. Seu
autor pretendia juntar através
dessa obra o modelo de
romance de cavalaria próprio
da Idade
Média,
caracterizado pela
liberdade imaginativa quanto
a acontecimentos e personagens,
com o modelo de novela da
primeira metade dos anos 1700,
na
qual se verificava o
realismo descritivo dos
acontecimentos e
a
profundidade psicológica das
personagens. Como
se não bastasse Walpole
queria
através da narrativa
se opor às visões Iluministas francesas e inglesas e ao
realismo racionalista em vigor na época, perspectivas
que defendiam a vitória da
razão sobre os sentimentos e valorizavam
a apresentação de
narrativas e de personagens guiadas
pela lógica e pela ordem.
Uma
das maneiras encontradas pelo autor para alcançar esses
objetivos
foi a retomada do elemento
fantástico característico
de
romances medievais. Ao longo
da narrativa, são
apresentados
ao leitor peças de armadura gigantescas, como um
elmo sob
o qual uma pessoa pode atravessar caminhando,
fantasmas e objetos que
ganham vida, elementos que
criam uma atmosfera sublime
e grandiosa para a
narrativa, mas que ao mesmo tempo procura gerar nas personagens (e
também no leitor) sentimentos de terror e confusão frente ao
desconhecido. Por exemplo,
após a
morte do noivo
Conrad logo
nas primeiras páginas, a família de Manfred é arremessada num
turbilhão de insegurança que
acaba por arrastar todos aqueles que vivem no castelo a
uma situação de quase delírio que só é aumentada por ocorrências
sobrenaturais, fazendo,
assim,
aflorar nessas
personagens diversos sentimentos, muitas vezes contraditórios e
conflitantes, que são os responsáveis por dar continuidade à
narrativa ao serem o
combustível para cada um dos personagens tomarem suas decisões e
praticarem suas ações.
É
por causa desse tratamento que quase todas as
personagens parecem ser inconsequentes e impulsivas, correndo por
corredores, sentenciando os outros à morte e brandindo espadas a
torto e a direito, atitudes
que aumentam a dinâmica da narrativa e que tornam aceitáveis os
elementos fantásticos apresentados, já que as reações a cada
fenômeno são verossímeis. Além disso, tais atitudes diante
de
acontecimentos contribuem para desenvolver outro elemento defendido
por Walpole: a profundidade psicológica.
Muitos leitores atuais podem questionar até que ponto essas
personagens melodramáticas são realmente profundas e
se esse objetivo do autor foi devidamente alcançado,
já que as
falas e ações de personagens como Theodore, Manfred, Jerome e
Hippolita parecem seguir
modelos genéricos de personagens de
romance de ficção gótica,
distanciando-se do tratamento dado em obras mais sutis e complexas,
muitas vezes chamadas de “realistas”.
Acontece
que durante o Iluminismo
inglês muitos autores defendiam que os sentimentos humanos deveriam
ser dominados pela razão até ao ponto de (quase)
desaparecerem na narrativa,
o que gerava personagens
planificados que seguiam
esquemas extremamente
lógicos e, muitas vezes,
inverossímeis. Esse sistema
foi subvertido
por Walpole ao apresentar
personagens sentimentais que
“falam e agem como se fossem reais”, tais
quais sujeitos
reais, como fica claro em
passagens como a conversa pela janela entre Theodore, Matilda e
Bianca, na qual ambas demonstram claramente terem consciência de sua
própria posição social,
do seu passado e de seus
desejos, ou no momento em que Theodore mente
sobre as ações de Jerome para defender Matilde da ira de seu pai
Manfred. Dessa maneira, as
personagens de Walpole podem ser vistas como uma grande mudança
para a época ao unificarem
o fantástico sentimental ao realismo moderno,
unindo-se aos acontecimentos
fantástico e sobrenaturais da narrativa para se opor diretamente à
sisudez e caretice iluminista.
Além do mais, as personagens de
Walpole, apesar de terem sua
origem nos romances de cavalaria medieval, ficaram extremamente
populares, tornando-se com o passar dos anos modelos
de personagens góticos que
viriam a ser utilizados à exaustão em
obras futuras, como nas de
Ann Radcliffe e Clara Reeve:
Manfred é o anti-herói
tirânico patriarcal;
Hippolita,
sua esposa, o exemplo de mulher que se subjuga as forças do marido e
sofre em silêncio pela sua
própria tolice; Theodore
é o herói que salva a donzela em
perigo e, após
mistérios revelados,
mostra-se mais do que
aparentava no início da narrativa;
Isabella, a
noiva e donzela indefesa,
é o exemplo de heroína que
sofre nas mãos do tirano, mas
escapa utilizando-se muito
mais da sorte e de coincidências do que pelo mérito próprio; e,
por fim,
Jerome é o padre fraco, que
comete inúmeros erros e não tem forças suficiente
para corrigi-los.
Apesar
de todos esses elementos, que tornam
O Castelo de Otranto
extremamente rico e inovador para a época, falta ainda falar da
coisa que mais me
chamou a atenção na
leitura: a narrativa é
composta seguindo uma estrutura de
tragédia grega
clássica, ao mesmo tempo que troca olhares com a
dramaturgia de Shakespeare,
mais moderno e, na época,
pouco valorizado pela sociedade europeia.
Dividido em cinco capítulos que se
passam num período de 24 horas, num local delimitado e de maneira
sequencial, tal como proposto por Aristóteles em sua “Poética”,
o livro apresenta uma forma
que se assemelha muito a
uma peça de teatro grega.
Apesar disso, Walpole quebra
o modelo trágico tradicional
ao nos apresentar
situações absurdas que
provocam um tom de galhofa à
tragédia. Momentos como a
queda do elmo gigante ou a atitude
dos servos em face de acontecimentos sobrenaturais garantem
um ar de sátira pelo
absurdo e de galhofa,
aproximando a narrativa das
peças shakespearianas como
Júlio César
e Hamlet.
Não é a toa que o
tratamento dado aos servos do castelo se aproxime do empregado por
esse dramaturgo: Walpole era leitor e
assíduo defensor de
Shakespeare, colocando
diversas referências
explícitas a
ele nas passagens do livro.
Desse modo, a maneira como
as ações e os
acontecimentos são ordenados e
apresentados ao leitor é
mais um exemplo da tentativa de juntar num mesmo romance, elementos
antigos (o romance de
cavalaria) e modernos
(Shakespeare
e novelas setecentistas),
enquanto se opunha à sisudez iluminista da época que
por diversas vezes desvalorizava as obras do bardo inglês.
Com um tom mais cômico,
sarcástico e absurdo do que pode ser observado em obras de Ann
Radcliffe e Matthew Lewis, O Castelo de Otranto pode desagradar
leitores que estejam procurando se assustar ao passar a noite lendo
um livro de horror com temática sombria. Ainda assim, é essencial
para qualquer apreciador de cultura gótica pelo seu valor histórico
e estilístico ao inovar e criar uma tradição seguida até os dias
atuais, e também pela facilidade de se identificar, em decorrência
do ar cômico e escrachado da narrativa, as origens de alguns tropos
desses elementos recorrentes que se tornaram marca registrada desse
estilo literário.
Apesar de a história não ser
tão inovadora e apresentar uma moral ultrapassada até para a época
(“Deus castiga os filhos pelos pecados dos pais até a terceira e
quarta geração”), o tratamento dado aos personagens é
satisfatório e os acontecimentos sobrenaturais extremamente ricos ao
mostrarem até que ponto a imaginação de um excêntrico gentleman
inglês pode ir ao ser bombardeado por uma cultura exotérica e
obscura, fazendo do livro uma boa pedida àqueles que buscam
algo mais leve, fabulesco e bem-humorado, e àqueles que se
interessam por uma inovação literária que junta vários estilos,
com especial destaque ao tratamento tragicômico shakespeariano.
***
Onde
encontrar o livro:
- Uma versão do livro em inglês pode ser encontrada no Repositório Institucional da UFSC, na página da Gothic Digital Library. O arquivo em PDF pode ser acessado diretamente clicando neste link .
- Além disso, atualmente, o Brasil conta com algumas edições do Castelo de Otranto publicadas. Aqui você pode adquirir a versão da editora Nova Alexandria de 2010, por enquanto a melhor no mercado, e aqui a da editora Escotilha, publicada em 2019. Valendo sempre procurar em sebos e na Estante Virtual, já que várias outras editras publicaram a obra desde a década de 1970.
Edição
Utilizada:
WALPOLE, Horace, The Caslte of Otranto. Editado com Introdução e Notas de Michael Gamer. Londres: Penguin Books, 2001.
WALPOLE, Horace, The Caslte of Otranto. Editado com Introdução e Notas de Michael Gamer. Londres: Penguin Books, 2001.
Bibliografia:
Introdução, Notas e Apêndice escritos e organizados por Michael Gamer em WALPOLE, Horace, The Caslte of Otranto. Editado com Introdução e Notas de Michael Gamer. Londres: Penguin Books, 2001.
BYRON, Glennis; PUNTER, David. The Gothic. Oxford: Blackwell Publishing, 2004.
PUNTER, David. The Literature of Terror A History of Gothic Fictions from 1765 to the Present Day, Volume 1 The Gothic Tradition. New York: Routledge, 1996.
Página Gothic Fiction da Wikipédia inglesa, acessada em 08 de maio de 2020 através deste link.
Introdução, Notas e Apêndice escritos e organizados por Michael Gamer em WALPOLE, Horace, The Caslte of Otranto. Editado com Introdução e Notas de Michael Gamer. Londres: Penguin Books, 2001.
BYRON, Glennis; PUNTER, David. The Gothic. Oxford: Blackwell Publishing, 2004.
PUNTER, David. The Literature of Terror A History of Gothic Fictions from 1765 to the Present Day, Volume 1 The Gothic Tradition. New York: Routledge, 1996.
Página Gothic Fiction da Wikipédia inglesa, acessada em 08 de maio de 2020 através deste link.
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| Gravura de Conrad soterrado pelo elmo gigante. Retirado do artigo de Peter N. Lindfield, "Imagining de Undefined Castle in The Castle of Otranto: Engravings and Interpretation", publicado no volume 18, número 3, da revista digital Image & Narrative. |


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