[ENSAIO] William Wilson, de Edgar Allan Poe: uma alegoria para a Psique Humana.


Detalhe do frontispício do conto,
publicado na Burton's Gentleman's Magazine, de Outubro de 1839

Dentro de todos nós há um conflito entre a razão e o instinto, entre aquilo que devemos moralmente e eticamente fazer e aquilo que realmente queremos fazer. Em William Wilson, a narrativa, as personagens, e as ambientações podem ser analisadas como uma representação desse conflito, que ocorre a todo momento dentro da mente humana. Mergulhemos, então, na psique do desafortunado William Wilson.







Antes de começarmos, fica um aviso e uma recomendação. A análise que se segue é fruto unicamente da leitura de trabalhos acadêmicos relacionados ao médico Sigmund Freud e ao escritor e ensaísta Edgar Allan Poe. Embora pautada por uma bibliografia, ela é passível de erros e equívocos, pois visa desenvolver uma nova leitura do conto William Wilson a luz de conceitos freudianos, sendo, portanto, pertencente ao âmbito literário, e não médico ou psicológico. O autor deste ensaio, de forma alguma, pretendeu realizar uma análise psicanalítica ou um estudo de caso, até mesmo porquê tal objetivo está além de suas capacidades. Diante dessa advertência, correções e discussões acerca dos conceitos empregados e da análise literária realizada são bem-vindos e incentivados, sempre mantendo parâmetros de decoro e respeito, de modo a promover um debate saudável e instrutivo.
Além disso, recomendamos fortemente a leitura de William Wilson para uma melhor compreensão das reflexões que serão discutidas, para que assim fiquem mais claras as passagens e referências que serão utilizadas como exemplos para sustentar a argumentação. Ao final da página, é possível conferir maneiras de adquirir física e digitalmente o conto.

Publicado em 1834, William Wilson é um conto de Edgar Allan Poe cuja premissa é a de emular um relato autobiográfico da personagem homônima, dando enfoque na estranha presença de um duplo (um indivíduo semelhante fisicamente e, por vezes, psicologicamente, a outro) que a persegue ao longo de toda a vida e procura controlar suas atitudes e impedir seus erros. A narrativa se inicia com o narrador apresentando-se como William Wilson e com a descrição de sua infância numa pequena cidade. Após ingressar no colégio interno dessa localidade, no primeiro dia de aula, o protagonista se depara com outro aluno que lhe é semelhante fisicamente e que possui os mesmos dados biográficos (ambos compartilham o mesmo dia de nascimento, a mesma data de ingresso na escola, e até mesmo os mesmos nomes). Tais semelhanças, e a confusão que elas geram entre os alunos, fazem com que desde o primeiro dia de contato, o destino de ambas as personagens fiquem interligados incondicionalmente.
No decorrer dos dias no internato, o relacionamento dos dois William Wilson desenvolvem-se de modo que o Duplo passa a interferir, discretamente, nas decisões do Original. Através de conselhos e de palavras sussurradas, o sósia de William Wilson procura evitar atos inconvenientes e, muitas vezes, equívocos que seriam postos em prática por William Wilson em decorrência dos comportamentos intempestivos e enérgicos deste, frutos de herança familiar. Essas semelhanças e interferências passam a incomodar cada vez mais o Original, ao ponto de que, após uma briga, ambos saem do colégio para tomarem rumos separados. Qual não é a surpresa do protagonista, contudo, quando percebe que, mesmo fora da escola, seu Duplo continuará a fazer o possível para impedir que aquele siga sua vida em meio à devassidão? O resultado desse dilema será o assassinato do Duplo pelas mãos do Original, evento este que provocará a consequente e futura morte do protagonista, que, visualizando tal destino, resolve narrar os acontecimentos fatídicos de sua vida.
Ao final da leitura do conto, fica claro que ambos os William Wilson são a mesma pessoa. Todas as semelhanças desenvolvidas e apontadas ao longo da narrativa corroboram essa perspectiva, e são inúmeros os exemplos que parecem aprofundar a confusão entre ambas as personagens, sendo a passagem final, a do assassinato, o elemento narrativo que fundamenta essa associação, já que o protagonista parece reconhecer ser sua própria voz a que propaga a maldição conjurada pelo Duplo e que levará à morte daquele. No entanto, uma leitura inicial pode levar a uma interpretação calcada por eventos sobrenaturais, insinuados nesse caso específico pela atmosfera de sonho e de imaginação que perpassa muitos momentos da narrativa e fundamenta até mesmo muitas percepções do narrador, quando este olha para sua infância. No entanto, o que se procurará aqui é ver o conto como uma alegoria na qual as personagens são representações de elementos da psique e a ambientação, na realidade, procura refletir o interior da mente humana.

Segundo a teoria freudiana, a psique humana pode ser dividida em três partes, das quais pode-se destacar o Superego, e o Id. O Id seria a parte da mente humana responsável pelas paixões, sendo muitas vezes representado pela impulsividade e pelos desejos. Ele se encontra, na maioria dos casos, inconsciente, pois é amplamente dominado e recorrentemente reprimido, o que o leva a ser completamente amoral, já que não está em contato com a exterioridade (sociedade, por exemplo) para, portanto, assimilar as regras e leis por ela desenvolvida. Além disso, o Id é responsável pelos investimentos objetais (o desejo de transformar outros indivíduos em objetos) e pela libido, estando, por fim, ligado ao aspecto mais irracional e mais “primitivo”, ou pré-histórico, vinculado a questões como hereditariedade e a chamada “natureza humana”.
Em contra partida, o Superego seria o desenvolvimento reativo à influência do Id no indivíduo. É mais racional e conselheiro, vincula-se diretamente a figura paternal na função social e psicológica, e, por isso, representa o lado repressor da psique humana e seu aspecto moralista e de culpa. Em muitos casos, o Superego desenvolve comportamentos autoritários e rigorosos, já que procura ajudar na inibição dos desejos e na impulsividade do Id. Representativamente, o Superego é aquilo que convencionou-se chamar de “consciência”, ou “razão”.
Diante dessa sucinta explanação, podemos relacionar o Id ao William Wilson Original e o Superego ao seu Duplo. Enquanto o primeiro, por exemplo, é impulsivo e enérgico, como ele próprio diz, e se entrega a devassidão e a comportamentos vis ao longo da narrativa, dando fluxo ao aspecto primitivo que acompanha sua família (lembre-se que, em casa, não foram impostos limites às vontades de William Wilson), o segundo é mais racional, dá conselhos que “não condizem com sua idade” e desperta tanto amor quanto ódio no seu sósia, ambas atitudes assimiláveis a figura paternal, que é mais velha e, por isso, mais sensata, e que, por vezes, desenvolve comportamentos autoritários, embora guiados pelo amor, ao tentar impedir os desejos do Id do filho. Destaco como simbólico na relação entre os dois William Wilson a característica da voz do Duplo: trata-se de uma voz sussurrada que, pode ser facilmente negligenciada, mas que é ouvida constantemente pelo Original, em decorrência da relação emocional e social que se desenvolveu entre ambos, tal qual ocorre com a voz da consciência, que está sempre presente, nos impedindo de cometer erros e ações desvairadas, ou a voz dos pais, que parecem nos guiar ao longo da vida.

No entanto, o que levaria a que o Superego de William Wilson se separasse e constituísse um ser autônomo na narrativa? E, além disso, quais seriam os motivos que levariam o Superego/Duplo a desenvolver comportamentos tão rigorosos e, por vezes, traumáticos ao Id/Original? A resposta mais óbvia seria a de que, por se tratar de uma alegoria, tal separação não precisaria ser explicada, já que possui apenas uma função explicativa. Mas isso seria limitar as possibilidades de compreensão da narrativa e, com isso, abandonar a chance de aprofundar a relação entre Duplo = Id e Original = Superego. Para então darmos continuidade a análise, abandonaremos momentaneamente a teoria freudiana para nos debruçarmos mais especificamente no enredo e nos elementos narrativos do conto.
Na infância, os pais do narrador foram incapazes de constringir os impulsos naturais do filho, já que eles, por sua vez, eram incapazes de suprimi-los em si próprios. Como decorrência, a educação de William Wilson foi muito benevolente, e nela estava excluída qualquer forma de brutalidade, o que poderia ter feito com que seu Superego acabasse tornando-se mais severo, talvez para suplantar a falta desses limites. No entanto, ao longo da infância, ainda não há a interiorização pessoal dos elementos paternais, o que nos levaria a compreender o fato do Superego ter aparecido apenas quando o narrador ingressa na escola, ou seja, quando “amadurece” e começa a se constituir como um indivíduo autônomo; a presença da figura do diretor/pároco (dr. Bransby), que assume uma postura paternal diante dos alunos, sendo gerador de sensações como temor e admiração, contribuiria como esse processo de internalização e de formação do Superego pois, enfim, haveria uma personalidade da qual William Wilson poderia se apropriar.
Esse contexto de formação muito acelerada da consciência moral seria ainda mais aprofundado em decorrência do cenário ao qual William Wilson estava inserido. A escola é descrita de forma a destacar os muros altos, que se assemelham aos de uma prisão e representam os limites dos desejos de Wilson, e as salas de estudo nas quais os locais onde ficam os professores são temidos pelos alunos e que representam a constante vigilância dos valores morais e religiosos. Além disso, a completa monotonia que caracteríza o cotidiano dos alunos seria um choque diante das vontades e liberdade que o protagonista desfrutava em sua casa. Consequentemente, nesse ambiente opressor, os impulsos do Id de Wilson podem ter sido ainda mais confrontados e suprimidos. A soma, portanto, dessa repressão e do ganho da consciência moral precipitada poderia, ao menos narrativamente e alegoricamente, ter levado ao choque entre o Id e o Superego, choque tão intenso, entre personalidades tão distintas e desconhecidas umas das outras, que poderia ter levado a separação da psique de Wilson em duas entidades independentes.

Certo, chegamos então a conclusão de que os dois William Wilson representam cada um, um aspecto diferente da psique humana, e que a narrativa apresenta por si só os motivos que poderiam ter levado a separação de ambos, dando origem a história que nos é contada pelo narrador. Resta compreender como a ambientação (as paisagens e cenários) pode ser vista como uma possível representação da mente do narrador. De maneira geral, os locais onde os William Wilson se encontram tendem a se aproximar das representações que corriqueiramente se fazem da mente. Isso ocorre, por exemplo, logo no início do conto, quando o colégio é descrito de modo a destacar o muro, que rodeia os alunos e é praticamente intransponível, e que dá a impressão de que o colégio é um ambiente isolado. Mas o que nos leva com mais força a considerar o ambiente como uma representação da mente humana é a maneira como o colégio é descrito internamente. Composto de inúmeras salas e quartos, o protagonista por diversas vezes se perde em meio aos corredores, e o narrador admite ser incapaz de localizar precisamente a posição, por exemplo, do dormitório ocupado por ele e seus colegas, tais quais as faculdades humanas, dificilmente assimiláveis a determinadas partes do cérebro, e muitas vezes incompreendidas. As diferenças na forma e no tamanho dos ambientes podem também fazer alusão as diversas faculdades mentais; os corredores tortuosos representariam as ligações internas que há entre essas faculdades; e o aspecto obscuro e lúgubre, novamente, reforçariam a hermeticidade mental.
A passagem em que o protagonista vai a procura do Duplo de noite é a melhor para exemplificar essa teoria. Todos os elementos descritos acima estão ali presentes: corredores tortuosos, luzes fracas, confusão. Além disso, é nessa parte que é contado ao leitor o local de dormitório do Duplo: um ambiente pequeno, que só pode ser ocupado por uma pessoa e que se localiza num canto afastado do prédio como um todo. Diante do fato de que o Superego de William Wilson separou-se do corpo, como dá a entender a narrativa, a localização desse quarto serve para enfatizar esse aspecto de cisão psicológica. Além disso, Freud afirma que o Id é a base sobre a qual as outras instâncias psicológicas se sustem, algo que parece estar representado no fato do protagonista saber caminhar facilmente pelos corredores, mostrando que pode estar presente e ligado às diferentes partes do colégio (nesse caso, da mente de William Wilson).
Dessa maneira, o colégio frequentado pelo narrador seria nada menos que o teatro no qual as instâncias psíquicas de William Wilson atuariam, fazendo, assim, uma alusão a presença desses elementos psicológicos na mente humana. Por sua vez, os outros ambientes onde há o encontro entre os dois William Wilson (vestíbulo mal iluminado, sala escura, antessala apertada) emulam as características relativas ao colégio, e servem pra reforçar ainda mais nossa teoria de que o contato entre ambas as personagens se dá, não no mundo exterior, mas sim dentro da própria mente do narrador, contribuindo, assim, para reforçar nossa teoria de que os dois principais personagens do conto seriam a representação alegórica de dois aspectos mentais do narrador.

Dessa maneira, William Wilson, de Edgar Allan Poe, nos permite um mergulho em uma dinâmica psicológica utilizando-se de conceitos da psicanálise. A partir da noção de Id e de Superego desenvolvidos por Sigmund Freud, identificamos como as duas personagens principais do conto podem representar duas instâncias distintas da psique do narrador; e vimos como a ambintação da narrativa contribui para fundamentar essa perspectiva. A análise aqui desenvolvida mostra, mais uma vez, como é possível que psicanálise e literatura se relacionem de modo a contribuir com a experiência de leitura de diferentes obras, inclusive aquelas integrantes do estilo gótico.


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Onde encontrar o conto:
Embora não seja o conto mais conhecido de Edgar Allan Poe, está presente em um bom número de coletâneas já publicadas.
Dentre elas, as edições publicadas pela Companhia das Letras são as de melhor tradução (José Paulo Paes) e as consideradas mais “clássicas”, em decorrência de serem bem conhecidas e bem perenes em sua atualidade. O melhor é que você pode escolher tanto entre uma edição mais bonita, como uma edição de bolso, mais em conta.
Na questão de acabamento gráfico, a melhor é a da Siderar Books. Conta com uma ótima tradução (Marcia Heloísa, pesquisadora de obras de horror estadunidenses), apenas menos conhecida do que a da Companhia das Letras. Fica só o aviso de que a Coleção Medo Clássico da editora dedicou dois volumes (até o momento) para os contos de Poe, e apenas no segundo volume é possível encontrar o conto William Wilson.
Mas fica ao seu critério decidir qual edição comprar, valendo sempre procurar na Estante Virtual, e nunca se esqueça de ter a certeza se no exemplar escolhido está incluso o conto que você deseja ler.
Para os falantes de inglês, é possível conferir digitalmente uma das primeiras publicações do conto, na revista Burton's Gentleman's Magazine de outubro de 1839, através desse link.

Edição Utilizada:
  • POE, Edgar Allan. Histórias extraordinárias. Seleção, apresentação e tradução de José Paulo Paes. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
Para se aprofundar na discussão:
  • FREUD, Sigmund. “O ‘Eu’ e o Id”. In. FREUD, Sigmund. Obras Completas Vol. 16O Eu e o Id, Autobiografia e Outros textos (1923-1925). São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
  • GOMES, Renata Domingues. O duplo psicanalítico e literário no Clube da luta e suas escolhas cinematográficas. 2015. 60 f. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação) - Universidade Tecnológica Federal do Paraná, Pato Branco.
  • OLIVEIRA, Marly A. “Quatro Variações Sobre o Tema do Duplo: Poe, Stevenson, Conrad & Rubião”. In: Revista Travessia, 1986, v. 5, n. 12
  • ROUDINESCO, Elisabeth; PLON, Michel. Dicionário de psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.
  • SOUZA, Vinícius Lucas de. A revisão do complexo de William Wilson em O médico e o monstro, de Robert Louis Stevenson. 2015. 1 CD-ROM. Trabalho de conclusão de curso (bachareladoLetras) - Universidade Estadual Paulista Julio de Mesquita Filho, Faculdade de Ciências e Letras (Campus de Araraquara), 2015. 


La Réproduction Interdite [A Reprodução Interditada], de René Magritte.
A obra acima da mesa é um exemplar de um romance de Edgar Allan Poe,
The Narrative of Arthur Gordon Pym of Nantucket.

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